Crédito: Luciano Faccini

Ancestralidade na pele/ Ancestralidade do osso/ Doída dos nervos/ Magoada na fibra/ Forte deusa valência/ A carne/ A carne

(Ancestralidade)

“A minha história começa na canção brasileira e nunca termina, se amontoa e remonta”. Com mais de 18 anos na música – entre grupos de música de tambor, samba de gafieira, coro de vozes e uma extensa carreira como crooner – Roseane Santos é uma das vozes mais marcantes do cenário cultural curitibano. Em sua trajetória, esteve ao lado de nomes como Nelson Sargento, Zé da Velha, D. Ivone Lara, Walter Alfaiate, D. Lia de Itamaracá, Kiko Dinucci, Silvério Pontes, Tião Carvalho e Orquestra à Base de Sopro.

Agora, a artista intimamente ligada aos universos do samba e ritmos afro-brasileiros compartilha um novo diálogo com suas próprias origens. Assim é Fronteiriça, feito “das palavras que eu quero e consigo dizer agora”, como revela Roseane Santos. “Lançar esse trabalho é mostrar ao mundo um cruzamento de regiões da minha existência. Anos de pesquisa entre a música tradicional e a canção contemporânea estão revelados ali. O disco tem um pouco de cada coisa que fiz: busca justamente trazer o que tenho de repertório. A ruptura, aqui, está em me assumir compositora”, completa.

Ao longo de suas 10 faixas, um passeio pelo passado ancestral, a memória amorosa e um presente/futuro onde respirar de um novo modo é necessário – quem sabe, por guelras? Fronteiriça é terno e marcante como a passagem vagarosa do tempo em uma noite de brisa quente na praia. É Milton (“seu trabalho é minha escola”), Clementina de Jesus, Bethânia, Elza, Gil, Dalva de Oliveira, Gal, Ímã (banda com a qual a artista colabora e que, junto com Fronteiriça, compõe um coletivo musical em Curitiba) e tudo o que Roseane Santos inspira para respirar. Fronteiras entre referências e experiências, corpo e voz, o tempo, a subjetividade e o objeto contrato.

É como aquilo que já não respira/ Aquilo que não tem razão/ É o que não estanca a engrenagem/ Não, não estanca

(Guelras)

Entre as canções, escritos da artista e parcerias com amigas e amigos da música, teatro, literatura e dança como Luciano Faccini, Leonarda Glück, Ary Giordani, Francisco Mallmann, Bia Figueiredo e Ana Modesto. A produção musical foi feita em parceria com Leonardo Gumiero e Luciano Faccini. A arte é de Thalita Sejanes sobre fotografia de Pretícia Jerônimo e a produção executiva é de Moira Albuquerque. O trabalho conta ainda com André Garcia no violão, guitarra e arranjos-base, Gabriela Bruel na percussão, Daniel D’Alessandro na bateria, Victoria Vilandez no contrabaixo e Luciano Faccini no clarinete, violão, efeitos, ambientações, direção artística, ao lado da própria Rose.

Fronteiriça vem porque tem de vir e entrar em contato com ele é um respiro por outros que não brônquios – um romper delicado das linhas invisíveis de tempo e lugar. “É como imaginar a água, que vai tomando os espaços, achando frestas, se depositando mais aqui do que ali”, narra Roseane Santos não só sobre o álbum, mas sobre a própria história.

Eu mesma me curo/ Mas antes preciso/ Me envolver na loucura/ Que chamo memória

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